A teoria dos valores ou axiologia surge em qual século é uma questão que remete às origens mesmo da filosofia e da ciência, já que as primeiras reflexões sistemáticas sobre o valor, o bom, o belo e o dever aparecem de forma organizada ainda no século V a.C., com Sócrates, Platão e seus contemporâneos, embora o termo “axiologia” só se estabeleça muito mais tarde. Ao longo da história, o campo manteve-se intrinsecamente ligado a debates sobre ética, estética, teoria do conhecimento e economia, refletindo diferentes épocas, culturas e avanços intelectuais.

Origens Antigas: o Nascimento da Filosofia dos Valores

Quando falamos em teoria dos valores no contexto histórico, as primeiras manifestações relevantes ocorrem na Grécia Antiga, especialmente nas escolas de Sócrates e Platão, no século V a.C.. Nesse período, questões sobre a justiça, a virtude e o bem transcendente passaram a ser objeto de investigação metódica, estabelecendo bases para a ética e a filosofia política. Platão, por exemplo, via o valor como algo intrínseco às Formas, enquanto Aristóteles, seu aluno, desenvolveu uma ética da virtude que buscava o “eudaimónia”, ou felicidade plena, como fim último da ação humana.

Na tradição oriental, paralelamente, o confucionismo, surgido no século VI a.C. na China, também se apresentou como uma teoria prática dos valores, focando na harmonia social, na educação e no culto aos deveres dentro da estrutura familiar e estatal. O confucionismo, assim como o estoicismo greco-romano, preenchia o espaço que, mais tarde, seria ocupado por sistemas éticos religiosos e secularizados, demonstrando que a preocupação com o valor não era resta a uma única civilização.

Max Scheler, Nicolai Hartmann, teoría de los valores - Maeoffice
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Idade Média e o Questionamento Teológico

Na Idade Média, a teoria dos valores encontra novo cenário na teologia cristã, especialmente com São Agostinho e São Tomás de Aquino. Para Agostinho, os valores estavam profundamente ligados à vontade divina e à ordem cósmica emanada de Deus, enquanto Aquino integrou elementos do aristotelismo à teologia, conceituando leis naturais e eternas que regulavam o comportamento humano. Nesse contexto, o “bom” era definido em função da finalidade divina, e a ética passava a ser uma ciência que mediavia fé e razão.

O surgimento das universidades medievais, especialmente a partir do século XII, proporcionou um espaço institucional para o debate filosófico e teológico sobre valores. Escolas como a de Paris e Oxford viram discussões acaloradas sobre os conceitos de ser, essência, e, consequentemente, de valor. Embora dominados por um paradigma teocêntrico, esses centros intelectuais prepararam o terreno para uma abordagem mais secular, que emergiria com força durante o Renascimento.

Renascimento e Iluminação: a Ética Secular

O século XVI marcou o Renascimento, momento em que a teoria dos valores começou a se afastar, ainda que parcialmente, do plano teológico para ganhar espaço na esfera humanista. Pensadores como Pico della Mirandola e, mais tarde, Erasmo, enfatizaram a dignidade humana, a liberdade e a capacidade de escolha, temas centrais para uma nova compreensão do valor individual. A ética passou a ser vista não apenas como submissão à vontade divina, mas também como construção ativa do ser humano.

O que são valores? | PPTX
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No período da Iluminação, séculos XVII e XVIII, as teorias éticas tornaram-se ainda mais racionalistas. Francis Bacon, René Descartes e John Locke contribuíram para uma filosofia que buscava bases empíricas e racionais para o conhecimento, incluindo o campo dos valores. Kant, por sua vez, com sua ética deontológica no final do século XVIII, propôsse um sistema baseado no imperativo categórico, onde o valor moral reside na intenção e na universalidade da ação, não nos resultados.

Século XIX: o Positivismo e a Crítica à Metafísica

O século XIX trouxe desafios profundos à teoria dos valores, especialmente com o surgimento do positivismo e do marxismo. Enquanto Augusto Comte e outros positivistas defendiam que o conhecimento válido era apenas o empírico e científico, reduzindo os valores a sentimentos ou a produtos sociais, Karl Marx via os valores como expressões superestruturais das relações de produção econômicas. Para Marx, a moralidade era, em grande parte, uma projeção das classes dominantes.

Além disso, o niilismo de filósofos como Schopenhauer e, mais tarde, Nietzsche, questionou a existência de valores objetivos, argumentando que eles eram construções humanas, muitas vezes frágeis e contraditórias. Nietzsche, em particular, ao anunciar “a morte de Deus”, apontou para o vácuo de sentido que poderia surgir no mundo secular, levando a uma reconsideração radical sobre a base da ética e da estética.

III - MEU 2021 Axiologia Ou Teoria Dos Valores Alterado | PDF ...
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Século XX e Além: a Diversidade de Abordagens

No século XX, a teoria dos valores explodiu em diversas vertentes, refletindo a complexidade do mundo moderno. A ética analítica, liderada por filósofos como G.E. Moore e mais tarde por R.M. Hare, buscou esclarecer conceitos como “bom” e “dever” através da lógica e da linguagem. Por outro lado, o existencialismo, representado por Sartre e Heidegger, enfatizou a liberdade individual e a responsabilidade na criação de valores em um universem sem sentido predeterminado.

Além disso, a ética da virtude teve um renascimento com Alasdair MacIntyre, que retomou Aristóteles para criticar o individualismo ético moderno. Na contemporaneidade, a teoria dos valores abrange desde o bioética até a ecologia, passando pela ética digital, refletindo uma preocupação global com justiça, sustentabilidade e significado. Hoje, a discussão sobre teoria dos valores ou axiologia é mais viva e plural do que nunca, envolvendo não apenas filósofos, mas também cientistas, economistas e ativistas.

Conclusão

A teoria dos valores ou axiologia não surge em um único século, mas como um campo em constante evolução, cujas raízes se estendem desde as primeiras especulações filosóficas da Grécia Antiga, passando pela Idade Média, o Renascimento, a Iluminação e chegando até as complexas discussões contemporâneas. Cada período histórico trouxe novas perguntas, métodos e respostas, moldando nossa compreensão sobre o que é valioso, digno e bom. Portanto, quando questionamos “a teoria dos valores surge em qual século?”, a resposta mais precisa é: ela surge e se reinventa a cada era, refletindo os desafios e aspirações de quem busca sentido.

Hierarquia e Definição dos Valores | PDF | Axiologia
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