Meu Violão E O Nosso Cachorro
Quando eu pego meu violão e o nosso cachorro entra no meu espaço, a casa inteira ganha uma nova melodia e um novo jeito de se sentir em casa.
A rotina que vira canção
Minha prática com o violão geralmente acontece no fim da tarde, quando o sol desce e o som do nosso bairro vai ficando mais suave. Enquanto as cordas respondem sob os meus dedos, o nosso cachorro aparece no corredor, com aquela atenção que só ele sabe dar: um olhar fixo, a pontinha do raio balançando como um metrônomo vivo. Ele não entende cifra nem melodia, mas sente a vibração no ar e transforma barulho em companhia.
Logo ele se ajeita no tapete, deitado de lado, ouvindo o som que parece contar uma história só nossa. É um hábito que virou rotina e, nessa rotina, o som do violão e o ronco suave do cachorro viraram a trilha sonora da minha casa. Às vezes ele fecha os olhos, como se a música o levasse para um lugar mais tranquilo, e eu me pego pensando que ele entende mais do que imagino.
Quando o silêncio também faz parte da canção
Não são só os acordes que marcam a presença dele. Quando paro de tocar, o silêncio ganha um novo significado, porque sei que ele está ali, respirando devagar, pronto para ser o primeiro a pular no meu colo assim que voltar a dedilhar. O som da nossa casa não seria o mesmo sem o leve tilintar da coleira e o passo cadenciado dele quando passeia pela sala enquanto estudo ou encontro novas ideias musicais.
Essa é uma das coisas que mais me surpreendem: a forma como o nosso cachorro transforma o meu tempo sozinho com o violão em uma experiência compartilhada. Ele não precisa entender a letra nem seguir o ritmo certo; apenas está lá, no mesmo espaço, me dando confiança para soltar as notas e experimentar novas sonoridades. A interação entre som e silêncio, movimento e imobilidade, cria uma ponte entre o mundo da música e o mundo dele.
Os pequenos detalhes que unem música e amor de cachorro
Reparei que ele tem algumas preferências musicais, sim. Em músicas mais lentas, ele se aproxima e deita a cabeça no meu joelho, como se a melodia acariciasse o coração dele. Já em músicas mais aceleradas, o rabo balança com mais força e ele começa a brincar sozinho, mas sem se afastar muito, como se a energia da música o convidasse a dançar de um jeito seguro.

- Ele observa a movimentação das minhas mãos como se estivesse aprendendo uma nova dança
- O toque suave das cordas parece acalmar ele, especialmente em dias de ansiedade
- Quando chove, ele se aproxima ainda mais, e o som do violão ganha um charme aconchegante
- As vezes ele ruge sem querer, não de propósito, apenas porque está tão relaxado que solta um som próprio
Memórias que nascem entre acordes e latas
Minhas memórias mais doces com o violão estão sempre ligadas a ele. Não necessariamente as músicas que toquei, mas a sensação de que, naquele momento, tínhamos o mesmo refúgio sonoro. Ele cresceu comigo, e cada nova canção que aprendo parece conter a lembrança dele já dormindo no meu chão de madeira, ou abanando o rabo na primeira noite que passei acordado, ainda no apartamento pequeno.
Levar o violão para algum lugar e perceber que ele não veio me faz sentir estranho, como se faltasse um ingrediente essencial. A gente cria uma rotina, ele cria uma atmosfera, e eu acabo criando memórias que só fazem sentido porque ele está ali, no chão, de olhos semicerrados, pronto para acordar e me seguir até o próximo canto da casa.
O violão como ponte entre o eu e o nós
Tocar com o meu cachorro por perto me ensinou que música não é só som, é conexão, é tempo compartilhado, é a chance de criar um laço sem palavras. Enquanto as notas saem, ele me escuta de uma forma que palavras não conseguem expressar. Ele não me julga, não cobra técnica, só me acompanha naqueles momentos em que preciso lembrar que, mesmo sozinho na sala, estou acompanhado.

O nosso cachorro transformou a prática diária com o violão em uma espécie de ritual sagrado, um espaço onde o mundo externo some e sobram apenas as cordas, o ar e o peso suave dele ao meu lado. Cada canção nova nasce sabendo que ele estará lá, testemunhando mais uma fase da nossa história, e isso me dá uma paz que nenhuma música sozinha jamais conseguiria trazer.
Conclusão
Meu violão e o nosso cachorro formam uma dupla improvável, mas perfeita: ele cuida da alma enquanto as notas cuidam do ar. Enquanto as cordas vibram e ele respira fundo, sinto que toda a casa ganha vida, música e amor, num círculo infinito onde um ao outro nos completam. Não se trata apenas de som e fúria de rabo, trata-se de encontrar a harmonia perfeita entre o que nasce dentro de mim e o que cresce ao meu redor.
Simone & Simaria - Meu Violão E O Nosso Cachorro (Ao Vivo)
Music video by Simone & Simaria performing Meu Violão E O Nosso Cachorro. (C) 2016 SS Gravações http://vevo.ly/9XgfBh.