Quando alguém faz a pergunta sobre o que é a Septuaginta, está buscando entender a origem e a importância de uma das versões da Bíblia mais fascinantes e influentes da história religiosa.

A origem histórica da tradução grega

A Septuaginta, frequentemente abreviada como LXX, surgiu no contexto da diáspora judaica do século III a.C., quando grandes comunidades hebraicas viviam sob o domínio helenístico, especialmente em Alexandria, no Egito. Esses judeus falavam grego como língua materna e precisavam de uma versão em grego dos textos sagrados hebraicos, que até então existiam apenas no hebraico e aramaico. A tradição narra que o rei Ptolomeu II Filadelfo, por volta de 250 a.C., reuniu setenta ou setenta e dois estudiosos judeus para traduzir a Bíblia hebraica para o grego, justificando o nome "Septuaginta", que significa "sessenta" em latim.

Essa empreitada não foi apenas um trabalho de tradução linguística, mas um esforço teológico e cultural monumental. Os tradutores da Septuaginta enfrentaram desafios formidáveis, pois o hebraico clássico possuía nuances, jogos de palavras e conceitos teológicos que não tinham equivalentes diretos no grego falado naquela época. Para muitos, a tradução foi vista como inspirada, pois emergiu em um momento crucial da história, quando o pensamento grego estava em contato intenso com as tradições semitas, preparando o terreno para a aceitação do Cristianismo.

A Septuaginta - Bíbliateca Teológica
A Septuaginta - Bíbliateca Teológica

O conteúdo e a abrangência dos livros

A Septuaginta é muito mais do que uma simples tradução do Antigo Testamento hebraico, pois inclui livros que não fazemiam parte do cânon hebraico, sendo fundamentais para o entendimento da história da Bíblia e do pensamento religioso judaico e cristão. Enquanto o Tanakh hebraico contém 24 livros, a Septuaginta abrange cerca de 49, incluindo obras como o Primeiro e Segundo Macabeus, a Epístola de Jeremias, o Hino dos três jovens na fogueira, e expande significativamente livros como o de Ezequiel e Daniel.

Entre os livros canônicos hebraicos, a Septuaginta oferece uma versão mais antiga e, para os estudiosos, muitas vezes mais próxima do texto original, especialmente em livros como o Salmos, os Profetas e os livros históricos. A inclusão de textos apócrifos e deuterocanônicos na Septuaginta reflete a diversidade literária e as debates internos do judaísmo antigo sobre quais escrituras eram consideradas sagradas e autoritativas, debates esses que também influenciaram as decisões sobre o Novo Testamento.

A ligação com o Cristianismo primitivo

O Novo Testamento foi escrito em grego, e as citações diretas da Septuaginta são inúmeras nos Evangelhos, nas Epístolas e em outros livros. Jesus Cristo, seus discípulos e os primeiros cristãos usavam ativamente essa tradução grega para estudar a Escritura, pregar e fundamentar seus ensinamentos. Isso significa que, para os primeiros cristãos, a Septuaginta não era apenas uma versão da Bíblia, mas sim a Palavra de Deus em ação, sendo indispensável para a compreensão da fé.

Septuaginta PDF Vários Autores
Septuaginta PDF Vários Autores

Além disso, muitos conceitos teológicos centrais do Cristianismo, como a ideia de Messias, de redenção e do Reino de Deus, foram moldados pela linguagem e pelos conceitos presentes na Septuaginta. Os Padres da Igreja, como Orígenes e Agostinho, recorriam constantemente a ela em seus escritos. Portanto, a Septuaginta é uma ponte essencial entre o Antigo e o Novo Testamento, permitindo que os cristãos entendam as raízes hebraicas de sua fé.

Importância para a teologia e a exegese

Na área da teologia e da exegese bíblica, a Septuaginta é uma ferramenta indispensável. Estudar a Septuaginta oferece aos estudiosos a oportunidade de comparar o texto grego com o hebraico, ajudando a identificar possíveis erros de cópia, diferenças de interpretação e camadas de significado que poderiam ser perdidas em uma leitura do texto hebraico puro. Essas comparações são a base para o campo da crítica textual, que busca reconstruir a forma mais próxima possível dos textos originais.

Além disso, a Septuaginta preserva a tradição textual em hebraico e aramaico que já existia na época de Jesus, servindo como um valioso testemunho da transmissão da Palavra de Deus ao longo dos séculos. Para muitas denominações cristãs, especialmente as ortodoxas e algumas protestantes, a Septuaginta continua sendo uma versão sagrada de grande autoridade, complementando as traduções modernas e oferecendo uma perspectiva histórica única sobre as Escrituras.

A SEPTUAGINTA – TRADUÇÃO DOS SETENTA | O BERAKÁ
A SEPTUAGINTA – TRADUÇÃO DOS SETENTA | O BERAKÁ

O legado duradouro

O impacto da Septuaginta vai muito além dos círculos religiosos, influenciando a língua, a cultura e a literatura ocidental. A linguagem da Septuaginta moldou o grego helenístico clássico e introduziu ao vocabulário grego inúmeros termos hebraicos, como "sábado", "alegria" e "jeová". Ela foi a versão da Bíblia mais lida e comentada durante a Idade Média e desempenhou um papel crucial na Reforma Protestante, quando os reformadores a resgataram como base para suas traduções.

Atualmente, estudar a Septuaginta é essencial para qualquer pessoa que queira se aprofundar na Bíblia, seja teologo, historiador, linguista ou leitor curiososo. Ela representa um esforço humano e divino de preservar e comunicar a mensagem sagrada através das barreiras linguísticas e culturais. Compreender o que é a Septuaginta é abrir uma porta para uma compreensão mais rica, antiga e completa da tradição bíblica, conectando-nos diretamente com as raízes mais profundas da nossa civilização ocidental.